Sebastião da Gama

A Região dos Três Castelos – circuito turístico

[castelo de Sesimbra,  de Palmela,  de São Filipe (Setúbal)]

(texto integral)

(este trabalho foi publicado, em português e francês, num opúsculo ilustrado,  pela Transportadora Setubalense, Azeitão, em Agosto de 1949)

[ Mapa da viagem]

Não é aqui nem ali, nomeadamente, é onde quer que começa a ser visto, que Portugal começa a ser maravilhoso; atravessem o Tejo, metam-se numa confortável camioneta e venham connosco verificar esta verdade; os que vierem connosco verão que Portugal começa na Península de Setúbal a ser a maravilha de que falam os livros.

Lisboa acena, do lado de lá do rio, o seu adeus alegre aos que partem. já o barco nos deixou na Outra Banda, já a camioneta arranca, já, depois de atravessadas as vilas de Cacilhas e Cova da Piedade, centros comerciais e industriais, se oferece a nossos olhos a mancha verde dos campos. Ulmos e acácias que vieram até à beirinha da estrada ver-nos passar; pinheirais extensos e orgulhosos da sua raça - são os filhos, são os netos dos que foram à Índia; a vinha a sonhar: «Quando serei vinho?»; o trigo a sonhar: «Quando serei pão?»; e as árvores de fruto, algumas carregadinhas como  ouriços, a prometerem doçura e frescura... A camioneta vai contente, porque é ela que mostra tudo isto, porque vão contentes os que espreitam pelas suas janelas. E já volta à direita, na encruzilhada do Fogueteiro, onde uma novíssima fábrica de têxteis artificiais abre os seus portões; por aquele ramo de estrada se encaminha, também entre pinhais, até à Aldeia de Santana, burgozinho de camponeses, lugar bom para quem gosta de guloseimas: n'A Camponesa, uma casinha discreta, há bolos deliciosos, dignos de um convento. E agora o macadame nos lembrará as antigas estradas: de Santana ao Cabo Espichel leva-nos um macadame simpático e bem cuidado, orlado de malmequeres brancos. Companheiros da estrada, uma ou outra carroça, um ou outro burriquito - toque toque toque - a caminho da vila. E assim chegamos à Igreja de Santa Maria da Pedra de Mua, do tempo de D. Pedro II, mais conhecida por Senhora do Cabo; é ali que mora a padroeira dos pescadores de Sesimbra. «Senhora do Cabo», com a ortografia errada se Deus quiser, tem sido o nome de muitos barcos de aquela vila. Desçamos até à beira-oceano, junto da ermida levantada sobre a Pedra de Mua (século XV), onde quer a tradição que a imagem de Nossa Senhora, hoje na igreja, tenha aparecido; de aí enchamos os olhos de Mar e Abismo. Uma baía minúscula de águas de cor de azebre acaba em mansidão uma cavalgada de rochedos cortados em perpendicular; depois, mar que não acaba, pespontado de velas e gaivotas; para a esquerda, o Farol, de 1790, dá sinais de terra aos que não tiverem medo das ondas. Vem do Oceano, quase sempre, um ventinho agreste mas belo: fala de Portugal e do seu destino.

Mas apressemo-nos, porque o passeio é longo, desçamos ao Castelo de Sesimbra, que os mouros ergueram. Hoje é uma relíquia de tempos heróicos: evoca D. Afonso Henriques, que em 1165 o tomou; no tempo do Conquistador, era dentro dos seus muros que a povoação, elevada a vila em 1323, ia crescendo casa a casa. Dentro do Castelo, a Igreja de Santa Maria ou de Nossa Senhora do Castelo, da segunda metade do século XII; a imagem da Senhora, em pedra, é do século XIII. Olhemos, das ameias, a vila de Sesimbra e o mar salgado, pão de cada dia de aquela terra. A praia, que visitaremos deixado o Castelo, chega para pescadores e para banhistas: de um lado se enfeita de aiolas e traineiras, do outro de barracas de lona. Aos pescadores protege-os, como se não bastassem a Senhora do Cabo e a Senhora do Castelo, o Senhor das Chagas, a Quem o povo todos os anos agradece, numa romaria típica.

0 Senhor das Chagas arrasta a Sua Cruz na Igreja da Misericórdia, que merece a pena ver por Ele e por um painel em tábua, talvez de Garcia Fernandes. Com mais uns minutos para a visita à Igreja Matriz (do século XVI) e à sua bela escultura barroca da Virgem, teremos feito uma ideia de Sesimbra, «a piscosa», anfiteatro de onde se sofre ou se goza o espectáculo sempre grande do mar.

Dez quilómetros de boa estrada e tomamos novamente a direita de uma encruzilhada (à Ponte de Cambas); vamos entrar na Serra da Arrábida. Nos primeiros lanços fica-nos ela em frente, azul e majestosa; pouco a pouco começam o alecrim, o rosmaninho, a esteva, a anunciá-la na sua voz de perfume. E ao longo da cobra de alcatrão não se cansa o mato de encantar os que passam: agora é o medronheiro, mais adiante a aroeira e o zimbro. Casalinhos de pequenos lavradores, os Casais da Serra, entremeiam de branco o verde do mato e o vermelho do barro.  

De repente, menina curiosa a espreitar da sua varanda, a Capela de Nossa Senhora de El Carmen; diz-nos adeus de longe e fica. E já nos esquecemos dela, porque a Serra do Risco, à direita, sobe para o Céu na sua escalada titânica. É ali o ponto mais alto da costa de Portugal, por isso lhe chamam «cabo de ares» os pescadores que de baixo, dos seus barcos minúsculos ante aquela grandeza, a medem com o terror ou a admiração da sua pequenez de homens.

A Serra tem o ar de uma onda que avança impetuosa e subitamente estaca e se esculpe no ar; é uma onda de pedra e mato, é o fóssil de uma onda. Ri-se do mar de agora, gaivota mansinha, profundamente azul, que faz avultar, com a planície que lhe fica à esquerda, o seu dorso gigantesco.

E seguimos; e à maravilha segue a maravilha: agora começa-se a descer a Estrada do Professor Gentil, três quilómetros que nos levam ao Portinho. Aconselha o bom gosto a fazer uma paragem de minutos. Estamos no Alto da Mata, assim chamado porque ali termina a Mata do Solitário, floresta cerrada onde se misturam de há séculos o carvalho com o medronheiro, o folhado com o zimbro. Toda a mata de que, donde estamos, vemos apenas a cúpula verde, é uma catedral de sombra. Lá terá vivido o asceta que lhe deu o nome e ao poçozinho que a refresca; e o Casal da Boavida, hoje meia dúzia de pedras perdidas numa clareira, lá está para indicar onde dormia o solitário.

Que pena não poder durar mais tempo esta nossa paragem! É que aqui é o ponto mais belo que até agora encontrámos: em nossa frente ergue-se, piramidal, o Monte do Guincho, onde a Mata do Solitário nasceu e vingou; de cada lado o mar, que vemos moldado por dois vales; tudo simétrico, tudo regular, espantosamente regular nesta Serra caprichosa e romântica. Os pássaros cantam a liberdade dos bosques. E nós baixamos até ao Portinho, onde havemos de almoçar. Uma baía que abraça amorosissimamente um mar estático... Uma fortaleza mandada construir por D. Pedro II para defesa da costa (piratas que gostariam de passar aqui o seu fim-de-semana) e que é hoje a Estalagem de Santa Maria... Mato a nascer ao rés das ondas dir-se-ia que tem a raiz na água salgada... Uma luz que fere a vista, mas de que a vista se enamora, a vestir as coisas todas de um brilho que não é deste mundo... Gaivotas que não são sinal de temporal - são antes as pombas de uma paz única e primitiva... Todo o Portinho (que poeta lhe pôs este nome?) a ser um cais sobre a Poesia, uma janela que dá para a Beleza... Sabe-nos bem estarmos vivos.

Mas não deixemos de ver a Lapa de Santa Margarida - uma gruta enorme que o mar enche com a sua voz sagrada. Humildemente escondida na sombra, uma capelinha tosca onde por vezes se reza missa (e o mar acolita e a missa ganha um sentido mais grandioso, mais preciso que noutro lugar qualquer; a gruta transcende-se e tem ogivas e tem vitrais e tem rosáceas a cada canto; Deus veio).

Depois Alportuche, uma pequenina praia a que nos conduz uma alameda de eucaliptos. E se tomarmos um bote poderemos ainda visitar a Praia dos Coelhos e a de Galapos. De passagem, vemos de perto a Pedra da Anicha, ilhota curiosa que em tempos deve ter ligado com a terra; camaleão da paisagem, se não muda de cor muda de forma e durante o nosso passeio já tivemos ocasião de lhe ver aspectos vários; outros vos esperam ainda - para cada lugar de que a vemos guarda a Pedra da Anicha uma cara diferente.

 

Chegou a hora da partida. De novo cortamos a Mata do Solitário - a estrada verte sangue. No Alto da Mata tomamos o ramal da direita e vai começar o novo filme; agora as cores são mais vivas, a luz mais álacre. Tornamos a ver a Mata, Alportuche, o Portinho, o Mar... Passamos a dois passos da Mata Coberta, que foi, antes de o ciclone a ter amputado, a mais numerosa da Serra; o Sol ficava-lhe à porta, contentava-se com doirar o cume do Monte Abraão, que a protege dos ventos do mar. Um minuto mais e aparece o Convento. Ali se concentra a religiosidade esparsa pela Serra; parece que é ali a fonte mística, quando o contrário é o que afinal acontece; ali desemboca, vindo de todos os cantos, trazido por todos os ventos, o espírito que dá à Serra da Arrábida elevação e sentido. Ali é que se apercebe com nitidez a Arrábida mais verdadeira, que não é a Arrábida dos banhos, nem a Arrábida das caldeiradas, nem a Arrábida das romarias encantadoramente pagãs, nem sequer a Arrábida do turismo; é o que aquelas paredes contam. Eis Frei Martinho, que em 1542 fundou o Convento, posto à entrada a impor silêncio, recolhimento e fé; e a capelinha-mor, onde um Cristo em madeira, uma Nossa Senhora da Romã e dois óleos de autores desconhecidos nos não chamaram em vão (e que bonitos e sinceros os barcos de pesca que os pescadores, devotos de Nossa Senhora da Arrábida, lá foram pôr); e o jardinzinho de S. Pedro de Alcântara, onde o buxo reza há trezentos anos uma oração que já deve ter chegado lá acima; e a Fonte da Samaritana, a escorrer frescura pela bica (santa, três vezes santa, das sedes que matou ... ); e a capelinha-brinquedo da Senhora da Piedade, que a paciência dos frades ornamentou de conchas e de cacos; e a maior graça do Convento que é a desordem harmoniosa das suas celas, a simplicidade das suas ruazinhas estreitas. Por tudo isto perpassa a memória dos fradinhos que descobriram a Arrábida lugar de oração, ante-câmara do Céu. Frei Agostinho da Cruz, que morava numa celazinha perdida no mato, junto do Convento Velho (duas ermidas, a da Memória e a de Santa Catarina, e mais uma série de sete que representam os Sete Passos, sendo o da Crucificação- Senhor dos Aflitos - única que escapou ao tempo, uma escultura de primeira ordem) encontrou a expressão poética desta descoberta. «Nesta Serra do Céu, vossa vizinha» - dizia ele a Nossa Senhora.

Mas Frei Agostinho não é só no Convento que nos vem à lembrança. Estamos agora na estrada que corta a Serra longitudinalmente, pelos píncaros, e de novo ele fala:

Alta Serra deserta, de onde vejo

As águas do Oceano de uma banda,

Da outra, já salgadas, as do Tejo.

 

Até onde o Poeta foi a pé, quando rasgava o hábito na aspereza dos carrasqueiros, na ânsia de subir tão alto que visse o Céu de mais perto, pode hoje toda a gente ir de automóvel ou de camioneta. Os homens magoaram as pedras amadas de Agostinho e passaram. 0 mato por aqui é rasteiro - acabou a Arrábida luxuriante para começar a Arrábida desolada e severa. Mas que encantamento de paisagem! - Para trás as matas, iluminadas de um Sol que as enriquece a esta hora da tarde; em baixo a fortaleza, meigamente poisada na orla verde do mar; cabrinhas agitam, os seus guizos e olham espantadas (ou indignadas?) os que perturbam a grande paz da Montanha. É um presépio autêntico, em que o Menino Jesus gostaria de ter nascido. Mirantes nos convidam a parar - varandins de onde Frei Agostinho veria, de uma banda, as águas do Oceano (e também as do Sado), da outra as do Tejo. E veria Setúbal garridamente disposta à beira-cais; e veria Lisboa, veria, no flanco norte da Serra (Os Picheleiros). as vinhas onde dorme o famoso Moscatel de Setúbal.

 

Depois a paisagem muda. Avistamos o Sanatório do Outão, estabelecido numa antiga fortaleza, e a fábrica de cimento Secil, e caminhamos para Setúbal por uma estrada rente ao rio; a palmeira, o eucalipto e o pinheiro são as árvores que dão cor e sombra ao longo destes sete quilómetros. Ranchos de rapazes e raparigas, de famílias inteiras que saíram a gozar o seu domingo, saúdam os turistas.

A Comenda e o seu palacete, a Praia de Albarquel com a sua fortaleza são ultrapassados. E Setúbal surge finalmente, com fábricas de conservas logo à entrada.

 

0 segundo castelo do triângulo está à vista: é o Castelo de S. Filipe, único castelo barroco de Portugal, mandado construir em 1590 por Filipe II. 0 panorama. que dali se abrange é magnífico. Apetece ficar lá, mas não pode ser: precisamos de uns minutos para admirar a jóia manuelina da Igreja de Jesus, que Boitaca, o mestre dos Jerónimos, concebeu e construiu em 1594. 0 manuelino deixou em Setúbal ainda outro documento: é o portal norte da Igreja de S. Julião, dos melhores do País. Desse portal olhemos para a estátua do Poeta Bocage, em mármore branco. Ainda na praça em que estamos e a que dá nome o grande Poeta setubalense, merecem ser vistos o esplêndido edifício da Câmara Municipal e os pequenos museus, nele instalados, D. Olga Moraes Sarmento e Dos Primitivos da Igreja de Jesus.

Para que façamos uma ideia do movimento piscatório da cidade, demos então, seguindo pela Avenida Todi, um salto à doca das Fontainhas. Em cima, em anfiteatro, fica-nos o velho e curioso bairro do mesmo nome; voltemos por aí, para não perdermos o panorama lindíssimo que se avista do miradouro de S. Sebastião.

Uma caixa de doce de laranja, para tornar a viagem mais agradável ainda, comprada em qualquer pastelaria, e teremos saído de Setúbal, Rainha do Sado, sabendo dela que é bonita e doce do princípio ao fim.

 

E depois de um ameno passeio entre laranjais e de uma subidazinha que há-de ter cansado muito homem de armas de outrora, aparece, a fechar o triângulo, o Castelo de Palmela. Quem primeiro lhe mediu a força foi, em 1147, D. Afonso Henriques. «Da construção primitiva», escreve Pina de Morais, «pouco resta: serão romanas as torres circulares, árabes as quadradas, do Mestre de Avis a Torre de Menagem, de D. Pedro II as fortificações mais modernas para uso do canhão.» Mas o que não terá mudado muito é a paisagem deslumbrante e sem fim, prémio valiosíssimo para quem não hesitou em subir à Torre de Menagem. E mais uma vez (a outra foi na Arrábida) se mostra à evidência que onde a paisagem portuguesa for pitoresca ou for grandiosa os primeiros turistas a chegar são os frades: aqui gozaram, de 1194 a 1218, o mesmo espectáculo que nós estamos gozando, os freires de Sant'lago, que em 1482, lançada a primeira pedra do seu templo, hoje em ruínas, tornaram à casa, como bons filhos, e nela se estabeleceram definitivamente.

A vila fica em baixo, aninhada entre vinhas e confiante na protecção do seu castelo. Dos montes à volta chega-nos a música estranha dos moinhos - quem sabe, D. Quixote!, se não serão barbudas sentinelas que D. Afonso ali deixou de guarda ao castelo...

Palmela é terra de bons frutos e bons vinhos. Baco não se importaria de vir connosco e muito menos se lhe segredássemos que a dois passos, deixadas para trás Quinta do Anjo e Cabanas, começa a região de Azeitão, onde o vinho, como diz o Povo que só diz verdades, não é vinho é vinhão. É em Azeitão a nascente, que dá de beber a todos os mercados do mundo, do excelente Moscatel de Setúbal. E como um bom vinho pede um bom petisco, inventou a gente da terra um queijo de ovelha divino e uns bolinhos de manteiga que obrigam o turista a parar, a provar, a gostar.

 

Mas Azeitão, que ficou no sopé da Serra da Arrábida como quem não teve coragem de a subir, não se recomenda apenas ao nosso paladar. Azeitão é terra de palácios, é «a fidalga Azeitão»,  como oliveira Martins lhe chamava. Atravessada a Aldeia das Vendas, estamos dentro em pouco no Palácio da Bacalhoa, monumento nacional, «um misto de arte florentina e de reminiscências mouriscas nas cúpulas de gomos e que, como museu de azulejos, só tem um rival em Sintra» (Joaquim Rasteiro).

Construído no último quartel do século XV, sofreu no século seguinte, sendo seu proprietário Afonso de Albuquerque filho, grandes modificações. Já pertenceu a EI-Rei D. Carlos e é hoje de uma senhora americana, Mrs. Scoville. Um dos seus quadros de azulejos representa Susana no banho e está datado de 1565.

Afonso de Albuquerque e outros fidalgos da região mandaram, em 1570, edificar a Igreja de S. Simão, em Vila Fresca, que é o ponto seguinte da nossa escala. E já perdemos de vista esta vilazinha e entramos na alameda que dá acesso ao Palácio da Quinta das Torres, um retiro romântico onde apetece esquecer o tempo, deixar-se embalar na poesia puríssima que se desprende de aquele palácio enfeitado a heras, do lago lamartiniano, dos cedros que lembram Narciso. O palácio é notável pela sua traça arquitectónica (do século XVI) e pelos painéis de azulejos, do mesmo século, que figuram, um, o incêndio de Tróia, outro, a morte de Dido, e outro ainda, num rodapé, pormenores de caçadas, ora realistas, ora de inspiração mitológica.

Abriu-se a porta do palácio e nós entrámos. Doçura de estar em casa (home, sweet home... ), prazer de tomar uma chávena de chá junto dos nossos... Alegria de uma coisa imaginada que acontece precisamente como a imaginámos... Nem sequer foi uma surpresa tudo isto que fomos encontrar depois de a porta aberta: o ambiente cá de fora anunciara aquela Casa de Chá, o nosso espírito exigia-a e achava tão natural que ela aparecesse como a inteligência e o bom gosto das pessoas que a criaram acharam natural que nós a esperássemos. Era preciso que o fio da Poesia se não quebrasse - que o encantamento não ficasse à entrada da porta.

«Quem inventou a partida decerto que nunca amou...» Partimos da Quinta das Torres a cantar este verso. Vila Nogueira aparece, tem pena (e é sincera porque é hospitaleira) de que não haja tempo para dar uma volta pelas suas ruas, de ver de perto o Palácio dos Duques de Aveiro, que albergou tantos reis, o do Salinas, que pertenceu a D. Constança, mulher de D. Pedro I, e a Igreja de S. Lourenço, de 1344.

 

É que a tarde começa a descer. Dois quilómetros mais, acabada nos Brejos a região de que vimos uma pequenina parte, e o Sol morre por detrás dos pinhais. Depois do orgulho da sua agonia teatral, as sombras não se demoram e tomam conta de tudo: a cor definha, a forma esbate-se. Coina, e o seu riozinho que ao lusco-fusco é um segredo, Paio Pires, Torre da Marinha., Corroios, já respiram noite... Cacilhas dá um ponto final na viagem e aponta para Lisboa, que parece ter sido invadida pelos pirilampos: tremeluz na noite azul, chama por nós como quem nos quer bem. Não tem ciúmes das terras bonitas que fomos ver, porque as «boas-noites» que lhe damos não são menos alegres nem menos do coração do que os «bons-dias» desta manhã. Para Lisboa há sempre um lugarzinho no coração e um galanteio à flor dos lábios.

Arrábida, de 28 a 31 de Maio - 1949.

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