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Com um passado histórico digno de respeito e um presente que faz antever um futuro risonho, a Península de Setúbal é cada ano que passa mais procurada pela qualidade e preços dos seus vinhos. Região com grande potencial e onde o estado de coisas se tem mantido de certo modo estacionário desde há muitos anos, aqui pode ocorrer a maior revolução vinícola da próxima década.
 

Azeitão, Palmela e Setúbal constituem os centros da acção vitivinícola da região. Ora juntos ora separados em "termos" ou "concelhias" ao longo dos séculos, é por aqui que se escreve a história do vinho que nasce entre as fozes dos rios Tejo e Sado.

Ela remonta à era pré-cristã, ou não fora o porto de mar e o clima muito favorável, factores suficientes para o surgimento e expansão desta indústria.

Mas o ponto de viragem deu-se bem mais tarde, no século XIX, e iria revolucionar todo o futuro definindo o presente que hoje vivemos. Os protagonistas da mudança tinham o mesmo nome próprio, eram ambos José Maria. José Maria dos Santos colonizou e desbravou a charneca do Rio Frio, entre o Pinhal Novo e Poceirão onde plantaria a maior vinha do Mundo com aproximadamente 6.000 hectares, construindo então as maiores adegas de Portugal onde chegou a armazenar colheitas de mais de 15 milhões de litros - números colossais mesmo para o nosso tempo.

Seria porém em Azeitão que o outro José Maria ditaria o futuro.

Vindo do Dão, onde nasceu, aqui chegou em 1830 o bacharel em Matemática, filho de José António da Fonseca. Uma vez instalado, passou a explorar a propriedade rural de seu pai, estabelecendo-se em 1834, na Vila Nogueira de Azeitão, numa empresa de nome próprio – a José Maria da Fonseca.

Homem dinâmico, inteligente e com visão muito clara de produtos e mercados, em breve revolucionaria todo o sector do vinho nesta pequena localidade. Eis alguns dos seus feitos: introduziu no amanho da vinha o arado e a utilização do gado muar, ao mesmo tempo que criava um maior compasso entra as cepas de modo a garantir às uvas uma maior exposição aos raios solares; Plantou na Cova da Periquita (propriedade adquirida por volta de 1846 e hoje dispersa por várias urbanizações) o Castelão Francês vindo do Ribatejo, hoje, a variedade omnipresente na península de Setúbal; nos moscatéis, deu início à utilização de outras castas brancas que lotava com a moscatel para dar ao vinho melhor acidez e introduziu a técnica da maceração das películas com o mosto fermentado para enriquecer de aromas e extracto o vinho final. Mas aquela que foi sem dúvida a medida que deu fama e prestígio aos negócios da família foi a comercialização revolucionária e quase exclusiva dos seus vinhos em garrafa, num altura em que o granel era rei e senhor. Em 1840 a comercialização de vinho engarrafado era já maioritária em todos os mercados. Entre 1849 e 1854, para o seu principal agente de Lisboa, José Alexandre, fundador da casa comercial do mesmo nome, 94% das vendas foram de vinho engarrafado e para os mercados europeus, africanos, americanos e asiáticos só enviou vinho engarrafado. Entre 1866 e 1870, só para o Brasil eram enviadas anualmente 4 mil caixas de Moscatel e 12 mil de vinho tinto.

Na península de Setúbal, grande parte dos desenvolvimentos vitivinícolas do século XX, seriam assim moldados por este homem no século XIX.

A Região Monocasta

De um modo porventura ingrato, a prodigiosa acção de José Maria da Fonseca estaria na base de um dos calcanhares de Aquiles da região de hoje e contra o qual lutam os seus sucessores: o problema do omnipresente Castelão, nestas terras chamado Periquita (ver caixa).

Vasco Penha Garcia, enólogo da JP Vinhos e estudioso da vitivinicultura da região, tem a sua teoria relativamente ao presente encepamento regional. Para este enólogo, antes da filoxera, os vinhedos encontravam-se maioritariamente nos vales ricos da zona de Azeitão. O lavrador de então não procurava os solos pobres de encosta ou as areias da planície. O Vale dos Picheleiros, por exemplo, entre os Montes de Azeitão e a Serra da Arrábida, tinha antes da fatídica praga qualquer coisa como 4 mil hectares de vinha.

Com o aparecimento do insecto, cedo se percebeu que nos solos arenosos de Palmela as videiras resistiam bem melhor e os viticultores começaram a "fugir" da Arrábida.

Na "fuga" levaram consigo as castas de que dispunham. No caso das tintas eram o Castelão Francês, na altura já conhecido como Periquita, o Espadeiro (Trincadeira), a Tinta de Santiago (Tinta Roriz) e o Monvedro.

Nos solos arenosos com nenhuma capacidade de retenção de água, a Periquita venceria devido à sua brutal resistência ao stress hídrico. "Há vinhas não regadas de Periquita em areias que mais parecem a Costa da Caparica, e que estão impecavelmente verdejantes em plena época de seca" diz Vasco Penha Garcia. Além do mais a casta, mais resistente às doenças e boa produtiva, cedo viria a vingar sobre as outras e em poucos anos tornar-se-ia senhora dos vinhedos.

Para agravar a situação, depois de descoberta a cura para a filoxera (enxertia da videira europeia em porta enxerto americano), a elevada quantidade de carbonato de cálcio dos argilo calcários da Arrábida viria a frustrar as primeiras tentativas de replantação, pois que o bacelo americano é muito sensível a este composto.

O Panorama Vitícola

Estes acontecimentos na época e a pressão urbanística que nos últimos tempos se tem abatido sobre a região de Azeitão e da Arrábida, levou a acentuadas diferenças entre castas e áreas de vinha na denominação de origem Palmela. Do ponto de vista estatutário, Arrábida e Palmela já não são sub-regiões, estão integradas num único DOC Palmela, mas na verdade trata-se de duas realidades vitivinícolas completamente diferentes.

Tal como a Bairrada com a casta Baga, Palmela luta numa espécie de colete de forças para tentar libertar-se do forte abraço de uma só casta, o Castelão. As castas tintas ocupam mais de 90% da área de vinha e nestas o Castelão tem mais de 95%. Todas as outras castas, como a Trincadeira, Touriga Nacional, Monvedro, Cabernet Sauvignon etc., etc. têm percentagens extremamente insignificantes. Nas brancas o Moscatel de Alexandria para o generoso de Setúbal e o Fernão Pires para os restantes brancos são de longe as dominantes. Outras como o Rabo de Ovelha, Malvasia Fina, Arinto ou mesmo Moscatel Roxo (a jóia da coroa dos moscatéis) são apenas paisagem ampelográfica.

Em face desta relativa monovariedade, dois dos factores, que entre outros, marcam a diferença entre os vinhos de Azeitão e de Palmela, são a abundância de clones existentes e principalmente as características edafoclimáticas das duas zonas que formam dois territórios perfeitamente distintos.

Relativamente aos clones, e segundo Domingos Soares Franco, enólogo da José Maria da Fonseca, estes serão superiores à vintena e estão obviamente na base da diferenciação de muitas produções e respectivos vinhos. Mas também o solo e o clima jogam importante papel na diferenciação.

Assim, a vinha da Península de Setúbal ocupa treze concelhos deste distrito e reparte-se na sua esmagadora maioria (90%) por duas zonas:

– a zona montanhosa a sudoeste formada pela cordilheira da Arrábida;

– e as planícies dos concelhos de Palmela e Montijo.

A zona montanhosa, que limita até certo ponto a influência marítima, é formada pelas elevações de menor relevo constituídas pelos montes de Palmela, Barris, S. Francisco e Azeitão e pelas três serras da península – Arrábida, S. Luís e Rasca. Por entremeios temos três vales - Picheleiros, Almelão e Alcube. Estamos numa zona dita mais fresca de imensos vales e inúmeras colinas quase todas voltadas a Norte, de cota variável entre os 100 e os 500 metros, com temperaturas médias inferiores à planície em cerca de 3 a 4 ºC., mais pluviosa (700 litros por m2/ano), e com um solo de argilo calcário com predominância de um ou outro elemento.

A planície, que já sente a influência do clima Alentejano, prolonga-se desde as margens do Sado para norte em direcção ao Pinhal Novo e a Montijo, tem uma altitude compreendida entre os 30 e os 100 metros, é mais quente, chove menos (500 litros por m 2/ano), tem menor humidade relativa durante os meses quentes e um solo de areia mais ou menos gorda (em matéria orgânica), com mais ou menos argila.

Em termos de área de vinha, a zona montanhosa da Arrábida tem apenas 6% do vinhedo da região enquanto que a planície detém todo o resto.

Um Pé no Passado e Outro no Futuro

A denominação de origem Palmela está paredes meias com o Alentejo e comunga com ele características muito semelhantes entre elas a do parcelamento. Assim, o número de viticultores é de 4762; o número de parcelas - 8.633; a área de vinha - 18.952 ha (segundo os dados fornecidos pelo I.V.V., via Comissão Vitivinícola); o nº de parcelas por viticultor - 1.8; a área média de exploração - 4 ha; e a área média por parcela - 2.2 ha. Estes números são muito semelhantes ao do Alentejo mas substancialmente diferentes da média do resto do País onde o número de parcelas por viticultor é de 3.3, a área média de exploração 0.9 ha e a área média por parcela de 0.27 ha. Estamos portanto perante um quadro claramente de latifúndio

Numa região com esta característica de emparcelamento e onde a esmagadora parte da vinha se estende por planícies, tudo aponta para que a mecanização desempenhe um papel preponderante na produção dando caminho e passagem ao futuro. Mas surpreendentemente, não só no campo da viticultura como na comercialização dos seus vinhos a região de Palmela parece viver com um pé encravado no passado, enquanto que o outro, apesar de estar bem assente no presente e a pensar no futuro, parece não ter força para puxar o retardatário.

Nestes milhares de hectares que rondam os 7% da área de vinha nacional, grande parte é vinha velha (apenas 1300 ha reestruturados nas 8 últimas campanhas), desenvolve-se em "taça", muita dela nem sequer é conduzida em bardos (necessitando do trabalho braçal), e a maior parte da embardada não é aramada.

Numa região que se debate seriamente com problemas de mão de obra no campo, devido à forte emigração desta para a indústria, estas condicionantes não deixam e ser preocupantes.

A este propósito Leonor Freitas, proprietária de uma tradicional casa vinificadora de Palmela, comentava o relativo desastre que foi a recente tentativa de alguns produtores aramarem as suas vinhas. Tal modernização obrigou-os a mudar a poda, mas a mudança foi de tal modo desastrosa que as cepas apenas deram folhas e esqueceram-se dos frutos. Claro que o arame foi amaldiçoado e pôs-se mesmo a hipótese de o voltar a tirar…

É de espantar, que numa região onde há uma vinha como a de Algeruz, por exemplo, (ver caixa) e empresas como a José Maria da Fonseca ou JP Vinhos, que personificam a modernidade e o futuro, o nível de cultura e informação disponível pareça não circular. Não é certamente por culpa das firmas, porque é reconhecido na região que, ao longo das várias gerações, a firma José Maria da Fonseca sempre teve como princípio a divulgação e disponibilização do conhecimento adquirido. Será então por culpa de quem? Talvez da vasta "experiência" que todos têm na região, ou seja, da tradição que tantas das vezes forma um forte bloqueio ao progresso.

A Associação de Viticultores colocou entretanto já técnicos de viticultura em campo, que a pouco e pouco e com muito trabalho, se espera que mudem o relativo marasmo vitícola. Mas não deverá vai ser fácil.

Entre o Granel e a Garrafa

No campo do comércio de vinho as coisas são ainda mais surpreendentes. Do lado dos "grandes", além da José Maria da Fonseca, JP vinhos e Adega Cooperativa de Palmela, que dominam todo o sector da produção de uvas e vinho, Palmela tem vários viticultores/vinificadores que possuem individualmente mais de 100 hectares de vinha e mesmo alguns que chegam ao meio milhar de hectares. As adegas destes vinificadores são surpreendentes e a sua produção de vinho, certificado ou não, atinge os muitos milhões de litros. Apesar de produzirem bons vinhos e de possuírem uma indústria de grande recursos, a maioria não engarrafa vendendo toda a produção a granel.

Numa época em que as marcas de vinho de mesa quase se atropelam umas às outras ao nascimento, procurando tirar o máximo partido das condições muito favoráveis do mercado de hoje, uma enorme fatia do vinho certificado e não certificado de Palmela é vendido a granel a empresas ou a armazenistas de dentro e fora da região. A justificação parece ser a enorme facilidade com que se vende o vinho e as satisfatórias margens de lucro que este mercado oferece. Contra factos não há argumentos.

Mas não havendo quintas ou suficientes produtores engarrafadores, ou seja, suficiente oferta de marcas diferenciadas que consolidem o prestígio da região (não nos podemos esquecer que possuindo mais ou menos a mesma área de vinha do Dão ou da Bairrada tem cerca de 15% dos seus engarrafadores), não admira que Palmela seja por vezes, muito injusta mas justificadamente esquecida pelo consumidor.

Do lado dos pequenos viticultores, a situação é ainda mais paradigmática. Na zona de Fernando Pó e Poceirão (uma das melhores de Palmela), por exemplo, há inúmeras adegas com tabuletas anunciadoras "Vende-se Vinho" junto às quais se juntam filas de carros ao fim de semana com a mala cheia de garrafões para atestar com o excelente Periquita (a casta, para os locais mantém e manterá este nome) do senhor fulano ou do "ti" sicrano.

Decorre inclusivamente um "Concurso Anual de Vinhos Na Produção" em Fernando Pó que visa galardoar a "melhor pomada". A maioria dos visitantes são consumidores e armazenistas que ali procuram matéria prima para as suas marcas.

Bons Vinhos e Melhores Preços

Seja como for, e apesar destas "limitações estruturais", a verdade é que a região surpreendeu largamente, e pela positiva, a equipa da Revista de Vinhos que ali assentou arraiais durante dois dias e provou a grande maioria dos seus vinhos. Para este trabalho, a redacção da Revista escolheu os produtores a visitar e contou com o apoio logístico (de grande profissionalismo, assinale-se) da Comissão Vitivinícola Regional da Península de Setúbal.

Muito sucintamente e considerando todos os vinhos provados, é possivel chegar a algumas conclusões. Em primeiro lugar, e contrariamente aquilo que pensava, o Castelão pode produzir vinhos impressionantes de qualidade de topo que poderão a curto prazo passar uma rasteira a outras regiões mais cotadas; depois, com a colheita de 1999 e nalguns casos mesmo com a colheita de 1998, poderemos assistir à "aurora" dos produtores engarrafadores, com pequenas produções de grandes vinhos. Poderá ser este o estímulo que falta a Palmela para se impor como região e ombrear com as principais DOCs. E não apenas no vinho Palmela a região mostra cartas: alguns dos moscatéis de Setúbal, encontram-se entre os melhores vinhos fortificados do Mundo.

Por último, mas não o menos importante, os vinhos de Palmela possuem provavelmente a melhor relação qualidade/preço do mercado. Em nome dos apreciadores, espero que a região mantenha neste campo, a sua sensatez: é que esta será certamente uma das suas melhores mais-valias no futuro que se avizinha.

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